



… Era um dia frio em Nova York e o encontrei num quarto grande e confortável, todo encapotado e com um cachecol. Ele pediu uma garrafa de vinho tinto e bebeu durante a entrevista. Eu o acompanhei em duas taças, no máximo, e ele tomou o resto. Começamos falando de música, do disco. Até que criei coragem para lhe perguntar como tinha sido sua passagem pelo hospital em Boston. Respondeu:
– Ah, essa doença, estou com essa doença e estou sem saco para tantos exames. Não gosto de hospital e exames.
– Mas você não está afim de saber que doença é essa?
– Não. Estou muito de saco cheio, sem paciência.
– Sem paciência para quê?
– Para essa coisa, essa maldita.
– Mas o que é essa maldita?
Lembro que ele pegou o copo, tomou um belo gole de vinho e disse:
– Olha, escreve aí, a maldita é a aids. Estou com aids e não agüento mais! Não é isso o que vocês querem saber?
Foi um ato dramático, não olhou para mim enquanto falava e nós estávamos sentados lado a lado. E aí me deu um branco, porque eu não estava preparado para que ele falasse, embora tenha ido ao seu encontro exatamente com esse objetivo. Ele continuou:
– Eu não revelei até agora sobre a doença por causa do público.
– Mas o público não ficaria do seu lado?
– Ficaria, mas não do jeito que eu quero, teriam pena de mim.
Comecei a refazer a entrevista inteira, agora considerando a revelação sobre a aids.
– Cazuza, você está tomando uma série de remédios e está bebendo?
– Ah, eu não vou parar de beber por causa disso. Bebo, fumo, faço o que quiser. Vou aproveitar o que tiver de vida.
Nunca mais vi nem falei com Cazuza, me pareceu ter estado com ele apenas para cumprir essa missão. Depois que abriu o coração, a imagem mais marcante que ficou para mim foi quando ofereceu vinho do seu próprio copo para que eu tomasse:
– Não quero que as pessoas fiquem com medo de mim. Você tem medo? Tem coragem de beber do meu copo?
Peguei o copo de sua mão e bebi!”